Devocional Diário

A Graça que Liberta

Base Bíblica

"Suportai-vos uns aos outros, perdoai-vos mutuamente, caso alguém tenha motivo de queixa contra outrem. Assim como o Senhor vos perdoou, assim também perdoai vós." — Colossenses 3:13 (ARA)

Contexto Bíblico

A Epístola aos Colossenses foi redigida pelo apóstolo Paulo por volta do ano 62 d.C., durante seu primeiro aprisionamento em Roma. A igreja em Colossos, uma cidade de menor importância na Ásia Menor, havia sido fundada por Epafras e estava enfrentando a ameaça de uma heresia sincretista que misturava misticismo judaico, ascetismo grego e filosofias gnósticas primitivas, diminuindo a supremacia absoluta e a suficiência de Jesus Cristo.

Após defender a divindade e a suficiência de Cristo nos capítulos teológicos, Paulo passa à aplicação ética prática a partir do capítulo três. Ele exorta os crentes a se revestirem do novo homem e a viverem de modo digno da sua união espiritual com Cristo. Nesse novo estilo de vida comunitário, onde não deve haver distinção étnica ou social, a prática do perdão mútuo e da paciência coletiva é indispensável. O imperativo de perdoar os outros é diretamente fundamentado na realidade anterior do perdão que o crente já recebeu de Deus: o termo original para perdão, *charizomenoi*, deriva de *charis* (graça), indicando que o perdão deve ser concedido livremente, sem merecimento, assim como a graça que nos alcançou.

Devocional

O perdão é uma das disciplinas mais difíceis e contra-culturais da vida cristã. Vivemos em um mundo que cultiva a cultura do cancelamento, a vingança pessoal e a exaltação do ressentimento como mecanismo de autodefesa. Guardar mágoa e alimentar a hostilidade contra quem nos feriu parece nos dar um senso temporário de poder e controle, mas na realidade é uma prisão espiritual que nos corrói por dentro, amargura a nossa alma e paralisa o nosso crescimento na fé. O ressentimento nos escraviza ao passado.

No entanto, a instrução paulina é explícita: "perdoai-vos mutuamente, caso alguém tenha motivo de queixa". Paulo não ignora que na convivência da igreja local ou nas famílias haverá feridas, ofensas e "motivos de queixa". Nós somos pecadores regenerados que ainda lutam contra o pecado, e a colisão de egoísmos inevitavelmente causará sofrimento. A santidade cristã não é caracterizada pela ausência de conflitos, mas pela maneira bíblica e graciosa com que lidamos com eles por meio do perdão mútuo.

A teologia reformada nos ensina que o perdão não é um sentimento subjetivo que aguardamos sentir, mas uma decisão de obediência baseada na verdade objetiva do evangelho. O padrão do nosso perdão é o próprio perdão de Deus: "Assim como o Senhor vos perdoou, assim também perdoai vós". Quando meditamos na gravidade do nosso próprio pecado contra o Deus infinitamente santo e na magnitude da dívida imensa que nos foi perdoada gratuitamente por meio do sacrifício substitutivo de Cristo, toda desculpa para reter o perdão desmorona.

Quem compreende a profundidade do seu próprio perdão na cruz perde a capacidade de ser implacável com o próximo. Perdoar não significa minimizar o erro, concordar com a injustiça ou restabelecer a confiança de forma ingênua e imediata. O perdão é a decisão consciente de entregar o direito de vingança nas mãos de Deus, liberando a pessoa da nossa dívida pessoal e desejando a sua restauração. O perdão liberta o ofendido da amargura e entrega o ofensor à justiça e à misericórdia do único Juiz perfeitamente justo.

Se você hoje guarda ressentimento contra alguém, saiba que a falta de perdão bloqueia a percepção da graça de Deus na sua caminhada. O nosso Salvador proferiu palavras de perdão sobre Seus carrascos enquanto sofria na cruz, pagando o preço para que fôssemos lavados e habilitados a perdoar. Peça ao Espírito Santo que traga à sua memória o imenso amor do Pai por você, que amacie a dureza do seu coração e lhe dê a coragem e a humildade necessárias para estender a graça de Cristo àquele que pecou contra você, caminhando em liberdade.

Aplicação Prática

  • Reflita diariamente no tamanho do seu próprio perdão: Sempre que for tentado a guardar ressentimento por uma ofensa, faça uma pausa e lembre-se do quanto Deus perdoou a você em Cristo. Comparada à nossa rebeldia contra o Criador, qualquer ofensa humana empalidece. Que a gratidão guie a sua atitude em relação ao ofensor.
  • Decida liberar o perdão como um ato de vontade: Não espere a vontade de perdoar surgir ou a dor passar para agir. Em oração silenciosa a sós com Deus, declare o seu perdão para com a pessoa, entregando a dor do seu coração nas mãos dEle. O perdão é uma promessa de não usar a ofensa contra a pessoa no futuro.
  • Busque a reconciliação e a paz dentro do possível: Conceder o perdão é um mandamento incondicional; a reconciliação e a restauração da intimidade dependem do arrependimento mútuo. Dentro do que depender de você, busque conversar de forma pacífica, com amor e humildade, visando a restauração do relacionamento quebrado.

Oração

Senhor Deus, Deus de toda graça e compaixão, obrigado pelo Teu perdão completo, definitivo e imerecido que me alcançou na cruz de Cristo Jesus. Confesso que muitas vezes o meu coração é duro, orgulhoso e retém o perdão contra aqueles que me feriram. Alimento mágoas e me sinto no direito de cobrar o ressentimento. Perdoa-me. Pelo Teu Espírito Santo, ajuda-me a perdoar assim como fui perdoado por Ti. Liberta a minha alma do peso da amargura, restaura as minhas relações e ensina-me a ser um canal da Tua graça em um mundo marcado pelo ódio e pela vingança. Em nome de Jesus. Amém.